🙏 O "mas" do Pai Nosso
Depois de muitos anos, algo que venho repetindo diariamente há anos ganhou um novo sentido. O que demonstra a profundidade que palavras podem ter. Eu já tinha refletido bastante sobre esse assunto. Há mais ou menos 20 anos, em uma aula de Administração no curso de Engenharia Civil, ministrada por um professor da área de engenharia de produção, no final da aula, o professor colocou uma questão que ficou na minha cabeça por muito tempo.
No final da aula ele com o entusiasmo de uma criança que descobriu algo novo contou que depois ter refletido muito tempo sobre o assunto finalmente havia chegado a uma conclusão. Em seguida colocou para a classe a questão: "Vocês já pensaram sobre o significado do mas no Pai Nosso?".
Eu fiquei extremamente confuso. A princípio não sabia sequer se com certeza ele estaria se referindo à oração do Pai Nosso. O que um professor de engenharia estaria falando de religião. Aquilo me parecida completamente fora de contexto. Talvez eu na minha ingenuidade eu não soubesse que a Universidade e seus professores tem um papel que vai além de formar engenheiros, e quer formar pessoas.
Naquela noite rezei o Pai Nosso algumas vezes, sempre pensando o porque do uso de uma conjunção de adversidade entre "não nos deixeis cair em tentação" e "livrai-nos do mal". Para mim o mistério parecida estar explicar a relação de antagonía entre essas frases aparentemente complementares. Por que não "não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mal"? Isso parecia ter o mesmo significado. A escolha da conjunção não parecia agregar ao significado dessa oração.
Mas isso não é possível. Pois na própria oração que Jesus Cristo nos ensinou isso deveria estar precisamente colocado.
Esperei que na aula seguinte o mistério fosse ser desvendado pelo professor. Mas ele não disse nada e também não perguntei. Aulas passaram, acho que inclusive trocamos de professor e o mistério se prolongou. Mas eu não preocupei, pois confiava que pensando a respeito sozinho eu era capaz de desvendar esse mistério.
Por muito tempo pensei que isso pudesse se tratar de um mero fator gramatical do idioma original da oração que acabou sendo traduzido dessa forma, mesmo sem uma razão específica na união destas duas frases em português. Em inglês, ao dizer "lead us not in to temptation, but deliver us from evil" isso parecia fazer mais sentido, pois a negação deveria ser seguida de um "mas", e não um "e". Aquilo então meramente ligava uma negação com um afirmação. O que não especialmente profundo. Outras vezes pensei no assunto, mas parecia não haver mais nada para descobrir.
Hoje na aula de sonhos falamos a questão de Deus conter ou não o mal. Que curiosamente também estava no que ontem discuti com minha mãe. Ao perceber que criticando as medidas restritivas de liberdade, disse que o bom é se fazer o que quer quando se tem vontade. Eu então argumentei que as coisas não funcionam assim. Que temos identificar a vontade Deus refletidas na restrições da nossa realidade.
Tenho aprendido muito no curso de ciência cognitiva que vou concluir hoje que a restrições (ou constraints) são fundamentais para nossa evolução. Se não houver restrição, o espaço do problema não tem limite e não solução. Sendo assim as restrições são fundamentais para evitar o problema da combinação explosiva do espaço a ser analisado e se chegar a uma solução.
Voltando à aula de sonhos e o bem e o mal de hoje aprendi que independente da visão de mundo, ocidental ou oriental, diferente do que tinha percebido na leitura dos Sonhos, Memórias e Reflexões do Jung, Deus sempre contém o mal. Deus criou o paraíso e a serpente. Já ouvi críticas aos textos bíblicos dizendo chamando Deus de mentiroso por dizer que ao comer do fruto proibido Adão e Eva morreriam, e que quem falou a verdade, que ao comer do fruto ficariam como Deus conhecendo o bem e o mal. Aí estão dois pontos de vista sobre a mesma coisa, ambos verdadeiros, um sob a ótica do Deus criador e outro sob a ótica da serpente, animal que frequentemente historicamente é um aterrorizante predador do home.
Ao comer do fruto então se abriram os olhos de Adão e Eva e conheceram que estavam nus, desprotegidos e envergonhados imediatamente se cobrem com aventais de folhas de figueira para que os outros, quem quer que esteja fora não os vejam nus.
Note que no livre arbítrio, do próprio ato de comer do fruto proibido, está a dualidade, que é representada na bifurcação da língua da serpente que dia a Eva que não morrerão e ao comer do fruto como Deus vão conhecer o bem e o mal. E esse é o pecado original, de quem ninguém pode escapar, pois no lugar de Adão e Eva, todos os homens fariam exatamente a mesma coisa, e fazemos isso com homens no momento que somos homens, na maneira como enxergamos ou conhecemos os problemas da vida.
Deus no entanto é único, contém sem dúvida o bem e o mal. O bem é Deus, mas Deus não é o bem. Deus é infinito e obviamente não é mentiroso, apesar de talvez parecer na lingua da serpente. Ao abrirem os olhos morreram Adão e Eva, e foram expulso do paraíso, pois o paraíso já não existia mais estando eles com conhecendo o bem e o mal.
De modo mais prático, pelo que foi colocado pela Maria Cristina no curso: o que nos separa de si mesmo é mal, e o que nos une é o bem. E eu adicionaria que sem o mal não seria possível conhecer o bem. Ambas as forças precisam existir para serem conhecidas. A luz que ilumina algo, projeta atrás desse algo a sombra.
Precisamente hoje depois de aprender isso e interessantemente discutir o sonho do Mouro Iluminado, aquele de pele escura que é levada para ser o iluminado e liderar o ceita da verdade (Vera), consegui depois de 20 anos com a ajuda do sermão do padre Javier desvendar o significado do "mas" no Pai Nosso.
Ao pedir para que nos livre do mal, pedimos que ao n'ao nos deixar cair em tentação, nos livre do mal que está dentro de nós e nos levaria a cair em tentação. A cair na tentação de ser livre ao invés de servir.
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